Divagações com algumas confissões à mistura
Bem, esta foi mais uma das minhas ideias peregrinas.
E porque não fazer um blog para destilar os meus maus fígados?
E porque não fazer um blog para destilar os meus maus fígados?
Ora essa agora!
É que há coisas que me vão causando engulhos - daqueles à séria - que não deixam mesmo passar nada e só deixam à vista uma grande carga de maus fígados e feitio também (isto há que reconhecer as coisas e um mea culpa fica sempre bem em qualquer mulher que se preze).
A verdade é que os tempos de "salvadora da pátria" já lá vão. Foram-se esmorecendo ao toque dos anos. A questão toda é que à medida que uma se foi outra foi vindo. E esta capacidade de indignação não acalma com o correr dos dias. E pronto, lá fico eu umas azias valentes que me assolam cada vez mais.
Às vezes dou por mim a pensar que felizes devem ser aqueles a quem tudo passa ao lado e nada indigna. Que bom deve ser alimentar o ego à frente da TV com novelas, talk e reality shows. O deixar-se estupidificar lentamente. Que bom que deve ser sentir perder a capacidade crítica (bem, convém que fique, pelo menos a do bem e do mal). Esses raramente devem sentir o fel vir à boca. E que bom deve ser não saber o que é "ter os dentes rombos", como se diz na minha terra.
Pronto, pronto! Confesso que já tentei deixar-me estupidificar conscientemente.
É que há coisas que me vão causando engulhos - daqueles à séria - que não deixam mesmo passar nada e só deixam à vista uma grande carga de maus fígados e feitio também (isto há que reconhecer as coisas e um mea culpa fica sempre bem em qualquer mulher que se preze).
A verdade é que os tempos de "salvadora da pátria" já lá vão. Foram-se esmorecendo ao toque dos anos. A questão toda é que à medida que uma se foi outra foi vindo. E esta capacidade de indignação não acalma com o correr dos dias. E pronto, lá fico eu umas azias valentes que me assolam cada vez mais.
Às vezes dou por mim a pensar que felizes devem ser aqueles a quem tudo passa ao lado e nada indigna. Que bom deve ser alimentar o ego à frente da TV com novelas, talk e reality shows. O deixar-se estupidificar lentamente. Que bom que deve ser sentir perder a capacidade crítica (bem, convém que fique, pelo menos a do bem e do mal). Esses raramente devem sentir o fel vir à boca. E que bom deve ser não saber o que é "ter os dentes rombos", como se diz na minha terra.
Pronto, pronto! Confesso que já tentei deixar-me estupidificar conscientemente.
Impus-me a mim própria um período sabático de estupidificação pessoal, qual busca do Santo Graal.
Comecei por deixar de comprar jornais. Durante o dia consegui resistir à tentação. Mas ao chegar à noite o síndrome de privação foi mais forte e a curiosidade - a tal que matou o gato - obrigou-me a desfolhar os que encontrei no quiosque quando lá passei para comprar cigarros. E pronto! senti logo meia dúzia de indignações a fazerem formigueiros pelo corpo, começando pelos dedos.
Outra das técnicas foi começar a tirar os livros de casa e a enfiá-los em sótão alheio, não fosse ter a tentação de pegar num, começar a ler e pronto lá se ia o meu período sabático.
Isso também não funcionou. As prateleiras da estante vazias não tinham nada de estético. E lá dei por mim a correr em direcção à única livraria da terra e a ensacar as últimas novidades e mais aquele ali e o outro de acolá, para as preencher. Estava visto que também não era por aqui.
Depois experimentei ter sempre a televisão do quarto ligada naqueles dias em que sono teimava em não vir (que para dizer a verdade são todos os dias que o ano tem). O truque era procurar os programas mais imbecis de todos os canais de cabo que chegavam lá a casa e deixar-me ficar a olhar, só a ver, sem pensar. E acreditem em mim que a escolha do pior era difícil de tão grande que era a oferta! E querem lá crer que nem assim? Eram umas febres e uns formigueiros que se punham em mim que o pouco sono que tinha se assustava e fugia a sete pés.
Por fim tentei deixar de conversar com os amigos de todos os dias. Passei só a falar debitando lugares comuns e constatações óbvias como: "que bom é beber uma imperial fresquinha com uns “minúins”"; “que bonitinha é aquela casa cheia de pilares e pilaretes pintadinha de cor de rosa com um relvado à frente cheio de estátuas de leões e odaliscas fogosas ”; “ai! e aquela tipa da novela! Querem lá ver que vai trocar o marido – tão bom homem – pelo outro que ainda por cima é casado e ela não sabe?”; “e a outra que anda com umas calças tão apertadas que até se nota que anda de fio dental. Uma pouca-vergonha!”
Os amiguitos começaram por me olhar de lado, nos primeiros dias, “Está-lhe a dar!” Mas, ainda assim, continuavam a marcar o ponto no mesmo local ao fim da tarde. E eu sempre a voltar à carga e a vê-los de sorriso cada vez mais amarelo conforme as semanas iam avançando.
A coisa começou mesmo a tornar-se grave – julgo eu – quando de um momento para o outro comecei a ouvir entre dentes: “ensandeceu”, “psiquiatria”, “colete de forças”, "internamento compulsivo" e “Hospital do Lorvão”.
Aqui é que a porca torceu o rabo! Assustei-me mesmo à séria, podem crer.
Comecei por deixar de comprar jornais. Durante o dia consegui resistir à tentação. Mas ao chegar à noite o síndrome de privação foi mais forte e a curiosidade - a tal que matou o gato - obrigou-me a desfolhar os que encontrei no quiosque quando lá passei para comprar cigarros. E pronto! senti logo meia dúzia de indignações a fazerem formigueiros pelo corpo, começando pelos dedos.
Outra das técnicas foi começar a tirar os livros de casa e a enfiá-los em sótão alheio, não fosse ter a tentação de pegar num, começar a ler e pronto lá se ia o meu período sabático.
Isso também não funcionou. As prateleiras da estante vazias não tinham nada de estético. E lá dei por mim a correr em direcção à única livraria da terra e a ensacar as últimas novidades e mais aquele ali e o outro de acolá, para as preencher. Estava visto que também não era por aqui.
Depois experimentei ter sempre a televisão do quarto ligada naqueles dias em que sono teimava em não vir (que para dizer a verdade são todos os dias que o ano tem). O truque era procurar os programas mais imbecis de todos os canais de cabo que chegavam lá a casa e deixar-me ficar a olhar, só a ver, sem pensar. E acreditem em mim que a escolha do pior era difícil de tão grande que era a oferta! E querem lá crer que nem assim? Eram umas febres e uns formigueiros que se punham em mim que o pouco sono que tinha se assustava e fugia a sete pés.
Por fim tentei deixar de conversar com os amigos de todos os dias. Passei só a falar debitando lugares comuns e constatações óbvias como: "que bom é beber uma imperial fresquinha com uns “minúins”"; “que bonitinha é aquela casa cheia de pilares e pilaretes pintadinha de cor de rosa com um relvado à frente cheio de estátuas de leões e odaliscas fogosas ”; “ai! e aquela tipa da novela! Querem lá ver que vai trocar o marido – tão bom homem – pelo outro que ainda por cima é casado e ela não sabe?”; “e a outra que anda com umas calças tão apertadas que até se nota que anda de fio dental. Uma pouca-vergonha!”
Os amiguitos começaram por me olhar de lado, nos primeiros dias, “Está-lhe a dar!” Mas, ainda assim, continuavam a marcar o ponto no mesmo local ao fim da tarde. E eu sempre a voltar à carga e a vê-los de sorriso cada vez mais amarelo conforme as semanas iam avançando.
A coisa começou mesmo a tornar-se grave – julgo eu – quando de um momento para o outro comecei a ouvir entre dentes: “ensandeceu”, “psiquiatria”, “colete de forças”, "internamento compulsivo" e “Hospital do Lorvão”.
Aqui é que a porca torceu o rabo! Assustei-me mesmo à séria, podem crer.
Ninguém tinha percebido esta minha incessante buscar da felicidade suprema e este meu período sabático de estupidificação pessoal.
E como com amigos destes ninguém se governa, fiz a trouxa e mudei de terra.
Mas também, em verdade vos digo: esta coisa nem assim me larga! E cada dia que passa as indignações são maiores!
E pronto! Aqui estou eu, com uma bela duma insónia, a fazer mais uma coisa de que – na volta - me vou arrepender amanhã: o arranjar um lugar para destilar os maus fígados e colocar uns disparates.
Logo se vê!
E como com amigos destes ninguém se governa, fiz a trouxa e mudei de terra.
Mas também, em verdade vos digo: esta coisa nem assim me larga! E cada dia que passa as indignações são maiores!
E pronto! Aqui estou eu, com uma bela duma insónia, a fazer mais uma coisa de que – na volta - me vou arrepender amanhã: o arranjar um lugar para destilar os maus fígados e colocar uns disparates.
Logo se vê!


2 Comments:
Parece-me que o caminho da sanidade não passa pela privação mas tão somente pelo distanciamento. Deixa de olhar para a bichona loura de domingo à noite. Em vez disso lê as declarações do ministro da saúde sobre as taxas e taxinhas da saúde...
Jay Lenno? nada disso... Procuradoria Geral da Republica...Apito Dourado
Levaanta-te e Ri? Naaaa...
Vê os noticiarios e encara-os com a seriedade que eles nos merecem....
Vejo que seguiu a sugestão...
E pode crer: destilar não cura, mas ajuda. Oh, se ajuda!
E o fígado agradece.
Beijos
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